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A invasão Invisível dos Micro e Nanoplásticos: o plástico já chegou dentro do nosso corpo?

CC

Cauê Carbonara

10 de setembro de 2026

Você provavelmente já ouviu que existem microplásticos na água, na comida, no ar, no solo, em rios e oceanos. Já foram encontrados até mesmo em regiões polares. Mas descobertas recentes aumentam a polêmica: partículas de plástico também estão sendo descobertas dentro do corpo humano, em amostras de sangue, pulmões, placenta, fezes, urina, leite materno, sêmen e outros tecidos humanos. Isso não significa que essas partículas estejam causando doenças específicas, entretanto muda completamente a forma como enxergamos a poluição plástica.

De onde veio tanto plástico?

Desde a expansão da produção industrial, principalmente a partir da década de 1950, materiais plásticos passaram a fazer parte praticamente de tudo: embalagens, roupas, automóveis, equipamentos médicos, eletrônicos, brinquedos, cosméticos e alimentos. E isso porque o plástico é barato, resistente, leve, versátil e extremamente durável. Porém, esta última característica resulta em um grande problema. Enquanto muitos objetos que utilizamos por alguns minutos ou horas são descartados rapidamente, sem reciclagem, o material plástico pode permanecer no ambiente durante décadas ou séculos. Com o tempo, ele não simplesmente “desaparece”. Muitas vezes, acontece algo diferente: ele se quebra em pedaços cada vez menores devido à luz ultravioleta do Sol, ao calor, à ação das ondas, ao vento, ao atrito e a outros processos físicos e químicos. Esses pedaços de plástico viram partículas microscópicas, os chamados microplásticos e nanoplásticos.

Microplásticos e nanoplásticos: qual é a diferença?

Os chamados microplásticos são partículas plásticas menores que 5 milímetros enquanto os nanoplásticos são ainda menores, com em escala abaixo de 1 micrômetro. Para termos uma ideia: um micrômetro é mil vezes menor que um milímetro. Essa diferença de tamanho é importante porque, quanto menores as partículas, maior pode ser sua capacidade de interagir com células, tecidos e barreiras biológicas.

Como os microplásticos entram no nosso corpo?

Nem todo contato com plástico significa automaticamente uma exposição perigosa. O risco depende do tipo de polímero, do tamanho das partículas, da quantidade, do tempo de exposição e de outras características. Existem três principais portas de entrada: ingestão, inalação e contato dérmico.

1) Pela alimentação e pela água

Além da água, frutos do mar, peixes e alimentos embalados, os recipientes e utensílios plásticos podem liberar partículas dependendo do material, do desgaste e das condições de uso. Um exemplo é aquecer alimentos em materiais inadequados, pois pode aumentar a liberação de substâncias e partículas plásticas.

2) Pela respiração

Na poeira, presente em nossas casas, pode ter fibras e partículas liberadas por roupas sintéticas, carpetes, cortinas, móveis, objetos plásticos, embalagens e desgaste de materiais presentes no ambiente. Quando respiramos, algumas dessas partículas podem entrar no corpo humano. Partículas maiores podem ser eliminadas pelos mecanismos naturais de defesa do nariz e das vias respiratórias. Mas partículas menores podem alcançar regiões mais profundas do sistema respiratório.

3) Pela pele

A exposição pela pele também é investigada, embora seja uma das rotas menos compreendidas quando comparada à ingestão e à inalação. Produtos cosméticos, de higiene e o contato constante com materiais plásticos podem contribuir para a exposição superficial. No entanto, é importante fazer uma distinção: estar em contato com a pele não significa obrigatoriamente que uma grande quantidade de partículas consiga atravessá-la e entrar na circulação sanguínea. A pele é uma barreira muito eficiente e, por isso, a ingestão e a inalação continuam sendo consideradas as rotas mais relevantes para a exposição interna.

E depois que entram no organismo?

Nosso corpo possui inúmeras barreiras para impedir que substâncias e partículas estranhas circulem livremente. Entre elas estão a barreira intestinal, o sistema respiratório, as membranas celulares, a placenta e a chamada barreira hematoencefálica, que ajuda a proteger o cérebro. Partículas grandes geralmente têm mais dificuldade para atravessar essas barreiras. Mas partículas menores, especialmente na escala nanométrica, podem apresentar comportamentos diferentes. Estudos experimentais sugerem que partículas suficientemente pequenas podem interagir com células e atravessar determinados tecidos. Isso significa que, em determinadas condições, elas podem passar do local de entrada para outros compartimentos do organismo. Uma grande revisão sobre biomonitoramento humano reuniu dezenas de estudos e confirmou que a exposição humana a microplásticos pode ser observada em diferentes matrizes biológicas. Ao mesmo tempo, os autores destacam que ainda existem enormes lacunas sobre concentração, distribuição, eliminação e consequências para a saúde.

Uma das descobertas foi a identificação de partículas plásticas em amostras de sangue humano. É uma informação relevante porque o sangue funciona como uma espécie de sistema de transporte do organismo. Se partículas conseguem alcançar a circulação, surge uma possibilidade preocupante: elas podem potencialmente entrar em contato com diferentes órgãos. Contudo, a detecção demonstra exposição e presença e não significa necessariamente que esteja causando uma doença.

A placenta é um órgão extremamente importante durante a gestação. Ela participa das trocas entre o organismo materno e o desenvolvimento fetal. Por isso, encontrar partículas plásticas nesse tecido levanta questões importantes sobre: exposição durante a gravidez, possíveis efeitos sobre o desenvolvimento, inflamação, alterações hormonais, transferência de partículas ou substâncias associadas ao feto. Isto faz com que essa exposição mereça ser investigada com muita atenção.

O que essas partículas podem fazer dentro do organismo?

1) Inflamação

O sistema imunológico foi desenvolvido para reconhecer e responder a elementos estranhos. Partículas persistentes podem provocar respostas inflamatórias, principalmente dependendo do tamanho, da composição química e da quantidade.

2) Estresse oxidativo

Nossas células produzem moléculas altamente reativas durante o metabolismo. Normalmente, o organismo possui sistemas antioxidantes capazes de manter esse equilíbrio. Mas, quando há produção excessiva dessas moléculas ou redução das defesas antioxidantes, pode ocorrer dano celular. Esse processo está relacionado a diferentes doenças e processos de envelhecimento. Experimentos com essas partículas plásticas observaram alterações relacionadas à esse processo.

3) Hormônios

O plástico, além de ser um material sólido, pode conter diferentes substâncias químicas utilizadas durante sua fabricação, as quais podem apresentar atividade hormonal e interagir com outros contaminantes químicos. Sendo assim, pesquisadores precisam analisar um conjunto de fatores que torna a avaliação toxicológica muito mais complexa: quantidades e concentração dos plásticos, composição, tamanho das partículas, tempo de exposição e tempo de permanência no organismo, entre outras.

O que podemos fazer no dia a dia?

Não é possível eliminar completamente a exposição aos microplásticos. Eles estão espalhados demais pelo ambiente. Mas algumas atitudes podem ajudar a reduzir exposições desnecessárias e, ao mesmo tempo, diminuir a poluição plástica: reduzir o uso de plásticos descartáveis utilizando produtos reutilizáveis; evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos inadequados, preferindo vidro para armazenamento e aquecimento; fazer uma limpeza regular para diminuir a quantidade de partículas presentes na poeira doméstica; descartar corretamente os resíduos encaminhando para reciclagem; apoiar políticas de redução de poluição plástica pensando num problema ambiental e coletivo.


Imagem de capa produzida com o auxílio de inteligência artificial (IA).