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A magia dos fungos: Por que esse reino é tão interessante?

LM

Me. Lucas Maruchi Delapena Silva

30 de setembro de 2026

Quando pensamos em seres vivos, costumamos dividir o mundo em plantas e animais, deixando os fungos num canto meio esquecido, associados ao mofo no pão ou ao cogumelo da pizza. Mas eles formam um reino inteiro da vida, e um dos mais fascinantes, porque a primeira surpresa já desmonta a intuição mais óbvia: geneticamente, os fungos estão mais próximos de nós, animais, do que de qualquer planta. Os dois grupos compartilham um ancestral comum que se separou das plantas há cerca de 1,1 bilhão de anos, e por isso são classificados juntos no chamado clado dos opistocontos. Faz sentido quando se olha de perto: assim como nós, os fungos não fazem fotossíntese e se alimentam absorvendo nutrientes do ambiente, e a parede de suas células é construída com quitina, a mesma molécula que forma o exoesqueleto dos insetos.

Essa proximidade genética convive com uma presença discreta e onipresente. Estima-se que existam milhões de espécies de fungos, e apenas uma fração pequena foi descrita até hoje. Eles sustentam florestas inteiras ao se associarem às raízes das plantas e ao decomporem a matéria orgânica, fazem o pão crescer e a cerveja fermentar, e deram à medicina a penicilina, as estatinas e a ciclosporina, que tornou os transplantes possíveis. Essa capacidade de se espalhar silenciosamente também explica um recorde curioso: no Malheur National Forest, no estado americano do Oregon, um único organismo da espécie Armillaria ostoyae ocupa cerca de 965 hectares de solo, tem milhares de anos e é considerado um dos maiores seres vivos já documentados, todo ele escondido debaixo da terra.

Essa mesma versatilidade que permite a um fungo colonizar quilômetros de floresta é o que torna alguns deles capazes de infectar um hospedeiro, e é aqui que entra o meu fungo de estudo, o Cryptococcus gattii. Ele era associado sobretudo a eucaliptos em regiões tropicais e subtropicais, até que, no fim dos anos 1990, surgiu causando um surto em Vancouver Island, no Canadá, numa região de clima temperado onde ninguém esperava encontrá-lo, e depois se espalhou para a área de Puget Sound, no estado americano de Washington, confirmando que sabia viajar. No Brasil, ele tem importância especial nas regiões Norte e Nordeste. O que torna esse fungo tão desafiador de estudar é o arsenal que carrega: uma cápsula de polissacarídeos que dificulta sua captura pelas células de defesa, a produção de melanina, que o protege de estresses do ambiente e do próprio sistema imune, e a formação das chamadas titan cells, células gigantes que podem passar despercebidas justamente por serem grandes demais para os mecanismos habituais de defesa do corpo. A infecção costuma começar pela inalação de esporos ou células desidratadas, que chegam aos pulmões e, a partir dali, podem alcançar o sistema nervoso central e causar meningoencefalite. Diferentemente de muitos fungos oportunistas, o C. gattii também é capaz de infectar pessoas com o sistema imune íntegro, e essa característica é um dos motivos que o tornam tão intrigante para quem estuda doenças infecciosas.

Vale ainda uma nuance que gosto de compartilhar quando o assunto é zoonose, porque o C. gattii costuma ser lembrado nesse contexto: ele também adoece cães, gatos, coalas e mamíferos marinhos. Mas, na maior parte dos casos, o contágio não vem de um animal para uma pessoa. Tanto humanos quanto animais se infectam a partir da mesma fonte, o ambiente, inalando o fungo presente em árvores, solo e vegetação. Por isso, os animais funcionam como sentinelas: quando surgem casos em cães, gatos ou animais silvestres numa região, isso pode alertar para a presença do fungo no ambiente antes mesmo de haver casos em pessoas, como já foi observado historicamente em Vancouver Island e também descrito em gatos no Rio de Janeiro. É um exemplo bonito de Saúde Única, a ideia de que a saúde humana, animal e ambiental estão profundamente conectadas.

É justamente esse tipo de conexão que me leva de volta à minha pesquisa, porque no meu doutorado faço uma pergunta que me fascina: o que acontece quando essa infecção acontece durante a gestação? A placenta é uma barreira essencial entre a mãe e o embrião, e uma infecção materna pode disparar ali uma resposta inflamatória, envolvendo um complexo de proteínas chamado inflamassoma NLRP3, que já foi associado a complicações como o trabalho de parto prematuro e a pré-eclâmpsia. Investigo se essa inflamação placentária pode interferir em vias de sinalização fundamentais do desenvolvimento, como a via Sonic Hedgehog (Shh), essencial para a formação e a organização do sistema nervoso central, e assim afetar o desenvolvimento do cérebro do embrião.

Estudar esses microrganismos não é só entender como eles causam doença, mas também aprender como o nosso corpo se defende, e como uma agressão no início da vida pode deixar marcas duradouras. Os fungos nos lembram que a natureza está cheia de seres discretos que, silenciosamente, sustentam ecossistemas, produzem medicamentos e, às vezes, desafiam a nossa saúde. Chamo isso de magia, mas é ciência: eles são tão versáteis que vale a pena conhecê-los melhor, e é exatamente por isso que precisamos falar mais deles.


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Imagem de capa produzida com auxílio da inteligência artificial (IA).