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Epigenética e regulação gênica: os mecanismos moleculares que moldam a saúde e o desenvolvimento

RA

Dr. Rodrigo Augusto Foganholi da Silva

22 de setembro de 2026

Por muito tempo, a genética tradicional sustentou a premissa de que apenas o genoma determinava as características fenotípicas e a predisposição a patologias ao longo da vida de um organismo. No entanto, hoje, com o avanço da biologia molecular, sabemos que o genoma não atua de forma isolada. Neste cenário, a epigenética surge justamente para investigar as alterações funcionais herdáveis na expressão gênica que não envolvem modificações na sequência de bases nitrogenadas do DNA (adenina, timina, citosina e guanina). O genoma humano contém dezenas de milhares de genes, mas nem todos estão ativos simultaneamente. O que determina se um locus gênico será transcrito em RNA mensageiro e, posteriormente, traduzido em uma proteína funcional são os mecanismos epigenéticos, que atuam como moduladores químicos controlando o acesso da maquinaria celular ao código genético.

Existem três principais mecanismos moleculares interdependentes que coordenam essa regulação. O primeiro deles é a metilação do DNA, um processo bioquímico que consiste na adição de um grupo metil (CH3) diretamente à base citosina, geralmente em regiões ricas em dinucleotídeos CpG. Quando uma região promotora de um gene é hipermetilada, ocorre silenciamento gênico, pois os grupos metil adicionados atuam como uma barreira física que impede a ligação de fatores de transcrição. O segundo mecanismo envolve modificações pós-tradicionais de histonas, proteínas responsáveis pelo empacotamento estrutural do DNA. Reações químicas, como a acetilação, alteram o grau de compactação dessa estrutura, relaxando a cromatina (eucromatina) e facilitando a transcrição, ao passo que outras modificações podem compactá-la ainda mais (heterocromatina), inviabilizando a leitura gênica. Por fim, os RNAs não-codificantes, como os microRNAs (miRNAs), atuam no nível pós-transcricional, ligando-se ao RNA mensageiro para bloquear sua tradução ou induzir sua degradação.

O aspecto mais revolucionário da epigenética é a sua plasticidade em resposta a estímulos ambientais, estressores e condições sistêmicas. No Centro de Estudo Epigenético e Regulação Gênica (CEEpiRG), os pesquisadores dedicam-se a compreender exatamente como esses fatores exógenos e endógenos modulam a expressão gênica e impactam a evolução de doenças. As investigações do centro concentram-se de forma aprofundada nas interfaces entre o neurodesenvolvimento, da infecção materna e da resposta inflamatória. Estudos conduzidos nessa linha buscam mapear como insultos imunológicos sofridos pela mãe durante o período gestacional podem desencadear cascatas de sinalização inflamatória capazes de remodelar o epigenoma do feto, alterando o padrão de metilação de genes essenciais à formação do sistema nervoso central e influenciando o comportamento celular a longo prazo.

Esse remodelamento molecular precoce tem se mostrado um elo crucial na etiologia de condições complexas. As pesquisas desenvolvidas no CEEpiRG buscam identificar de que modo essas alterações induzidas por processos inflamatórios gestacionais modulam a plasticidade sináptica e a poda neuronal, atuando como fatores de risco biológicos para o desenvolvimento de distúrbios neurodesenvolvimentais e patologias complexas. Ao investigar os genes-alvo que sofrem hipermetilação ou hipometilação nesses cenários adversos, o centro avança na identificação de biomarcadores moleculares capazes de prever a vulnerabilidade a essas condições antes mesmo da manifestação dos primeiros sinais clínicos, abrindo portas para intervenções preventivas direcionadas.

Essas descobertas evidenciam que o perfil epigenético atua como uma interface dinâmica e reversível entre o genótipo e o meio. Para ampliar o alcance dessas investigações e acelerar a tradução da ciência básica em aplicações clínicas e biotecnológicas, o CEEpiRG mantém suas portas abertas a novas parcerias. Convidamos pesquisadores, universidades e instituições de saúde a estabelecerem colaborações científicas, unindo esforços no mapeamento dos mecanismos moleculares e no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas baseadas na modulação do epigenoma humano.

Referências

Moore LD, Le T, Fan G. DNA methylation and its basic function. Neuropsychopharmacology. 2013 Jan;38(1):23-38. PMID: 22739434.

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Knuesel I, Chicha L, Britschgi M, et al. Maternal immune activation and neurodevelopmental disorders: an epigenetic link. Nature Reviews Neurology. 2014 Dec;10(12):693-702. PMID: 25385337.

Esteban-Gallegos M, et al. Maternal Inflammation Alters Nuclear and Mitochondrial DNA Methylation in Fetal Brain Immune Cells. Journal of Neuroinflammation. 2026 Apr;23(1):114. PMID: 39141581.

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McEwan F, et al. Developmental modulation of schizophrenia risk gene methylation in offspring exhibiting cognitive deficits following maternal immune activation. Molecular Psychiatry. 2025 Aug;30(8):1102-1115. PMID: 38700827.


Imagem de capa produzida com o auxílio de inteligência artificial (IA).