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Homeopatia: Princípios, preparo e mecanismos propostos

VL

Vanessa Landau

23 de setembro de 2026

Texto escrito em parceria com a professora do PPG em Patologia Ambiental e Experimental da Universidade Paulista - UNIP, Dra. Leoni V. Bonamin.


Historicamente, a homeopatia fundamenta-se em três pilares principais: o princípio da similitude, a experimentação em indivíduos sadios e a utilização de medicamentos dinamizados. Seu desenvolvimento é atribuído ao médico alemão Samuel Hahnemann, entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Embora os estudos de Hahnemann espelhem a visão de mundo e da medicina de sua época (Waisse e Bonamin, 2016; Bonamin e Waisse, 2019), o princípio da similitude refere-se à compreensão de que substâncias ativas podem produzir efeitos primários capazes de provocar alterações em diferentes sistemas do organismo, como é bem estabelecido pela farmacologia clássica, e que, como resposta secundária a esses efeitos, os sistemas vivos apresentam reações adaptativas. Recentemente, observou-se que tais reações adaptativas também podem ser deflagradas por estímulos químicos ou físicos fracos e específicos (Calabrese e Giordano, 2021; Madl et al., 2023; Madl e Renati, 2023; Renati e Madl, 2025), comparáveis ao fenômeno da hormese, tradicionalmente descrito no contexto da toxicologia das microdoses (Calabrese e Agathokleous, 2026).

A aplicação do princípio de similitude na prática clínica homeopática, portanto, permite estimular uma resposta homeostática do organismo diante da enfermidade ou de situações de estresse, por meio de um ajuste fino das funções orgânicas sistêmicas, conforme observado experimentalmente em diversos modelos biológicos, em especial na modulação de expressão gênica em células isoladas ou em organismos animais e vegetais (Marotti et al., 2014; Marzotto et al., 2014 a,b; Lopez-Carvallo et al., 2020; Nagai et al., 2023; Mohammad et al., 2025 a,b).

A Farmacopeia Homeopática Brasileira (FHB) é o documento oficial no Brasil que estabelece normas para o preparo, a pureza, o controle de qualidade e a identificação dos medicamentos homeopáticos. Esses preparados têm origem em um insumo solúvel (soluto) diluído em solvente polar ou em um insumo insolúvel (em geral, de origem mineral) triturado em lactose em pó até a potência 3CH, para seguir com o processo na fase líquida, por meio de diluições seriadas seguidas de 100 sucussões mecanicamente padronizadas (BRASIL, 2011). Para uso veterinário, os insumos dinamizados são regulamentados pelas diretrizes do MAPA (BRASIL, 2022). Na escala centesimal Hahnemanniana, a preparação é realizada na proporção de 1 parte do insumo ativo para 99 partes do veículo. Após a diluição, o preparado é submetido à sucussão, caracterizada pela agitação vertical e ritmada do medicamento, processo denominado “dinamização”. Esse procedimento resulta, inicialmente, na primeira dinamização centesimal hahnemanniana, denominada 1CH. As preparações seguintes, como 2CH, 3CH e as demais, são produzidas sucessivamente a partir das diluições e agitações anteriores e recebem a denominação de “potências homeopáticas”. Além da escala centesimal, há outras formas de preparação. As escalas decimal (D) e cinquenta-milesimal (LM) diferem em suas proporções de diluição. Conforme descrito, a escala LM utiliza a proporção de 1 parte de insumo para 50.000 partes de veículo (Villalva, 2009; Adler et al., 2011; Martínez-Islas et al., 2021; Karuppusamy et al., 2022). Nota-se que o uso de solventes polares é condição sine qua non para a produção de insumos dinamizados e que a presença da água ao longo do processo é fundamental, ainda que se utilizem glóbulos de lactose embebidos como forma de apresentação.

Em determinadas preparações, o processo de dinamização pode ultrapassar o número de Avogadro, resultando em soluções nas quais a probabilidade de permanência das moléculas do soluto é considerada nula. Dessa forma, os efeitos biológicos observados não podem ser compreendidos apenas à luz dos pressupostos da farmacologia clássica. De fato, a curva potência-efeito de preparações homeopáticas apresenta um padrão periódico não comparável à curva dose-efeito já conhecida (Carmine, 1997; Cristea et al., 1997; Lorenz et al. 2023; Belon et al., 2004; Bonamin et al., 2024), indicando tratar-se de fenômenos distintos.

Assim sendo, é preciso considerar aspectos particulares do processo de dinamização, sob o ponto de vista físico-químico do solvente remanescente. Desde o final dos anos 80, com a publicação dos estudos sobre eletrodinâmica quântica dos solventes polares, em especial da água submetida a certas condições (Del Giudice et al., 1988), entendeu-se que a geração de fótons e a segmentação das moléculas de água em grupamentos dinâmicos que compartilham a mesma função de onda, ditos “domínios de coerência”, são aspectos fundamentais para se entender a regulação bioquímica que os solventes polares podem exercer sobre as moléculas orgânicas (Chaplin, 2006; Del Giudice e Tedeschi, 2009; Lobyshev, 2023; Madl e Renati, 2023; Nishiyama et al., 2024; Greco, 2025). Adicionalmente, a constatação de que a energia cinética empregada no processo de dinamização é forte o suficiente para produzir tais mudanças na dinâmica molecular dos solventes, incluindo a formação de nanopartículas, nanobolhas e nanoassociados (Konovalov et al., 2014; Kokornaczyk et al., 2020; Tournier et al., 2021;  Demangeat, 2022; De Mattos Dourado et al., 2026), abriu caminho para a compreensão da natureza das altas diluições dinamizadas e para a proposição de hipóteses plausíveis para explicar os efeitos modulatórios das altas diluições observados em diferentes sistemas biológicos de forma reprodutível, entre os quais pode-se citar alguns exemplos (Bonamin e Bellavite, 2015; Endler et al., 2015; Faedo et al., 2024; Ücker et al., 2018; Tarasov et al., 2020; Suri et al., 2022; Nagai et al., 2023; Lima de Andrade et al., 2024; Mohammad et al., 2025 b; Moharana et al., 2025; Pereira et al., 2026), em meio à literatura científica sobre pesquisa experimental em homeopatia produzida nos últimos 40 anos (314 artigos listados no PubMed entre 1986 e 2026). 

Dentre as hipóteses apresentadas nos últimos 20 anos, destaca-se a hipótese dos “domínios de coerência”, conforme descrito acima, uma vez que sua modelagem matemática, ferramenta comum na formulação de conceitos no âmbito da eletrodinâmica quântica, é compatível em algum grau com todas as observações experimentais descritas sobre altas diluições, tanto em pesquisas físico-químicas, quanto em pesquisas biológicas, sendo a única hipótese proposta até o momento capaz de explicar a especificidade e a periodicidade da curva potência-efeito, dadas às características dos processos eletrodinâmicos (Tournier et al., 2021). Resta aos jovens pesquisadores dar continuidade às pesquisas na área para a consolidação do entendimento dos mecanismos de ação a partir do que já foi feito e publicado, mas é necessário que haja uma mudança de paradigma e uma atualização dos conhecimentos quanto ao conceito de matéria e às suas propriedades, de acordo com os preceitos da física contemporânea e suas conexões com a biologia (Madl e Renati, 2023; Kiene e Hamre, 2024; Renati e Madl, 2025).

Até o momento, alguns pesquisadores têm se empenhado em estabelecer modelos experimentais capazes de corroborar, ainda que indiretamente, a participação da eletrodinâmica do solvente, bem como de suas particularidades, nos efeitos biológicos das altas diluições dinamizadas. É o caso da ressonância magnética nuclear (Demangeat, 2022), da microevaporação (Kokornaczyk et al., 2020) e da solvatocromia, sendo esse último desenvolvido inicialmente pelo pesquisador britânico Steven Cartwright (Cartwright 2016, 2018, 2026; Cartwright e Pinkus, 2026) e reproduzido por nosso grupo de pesquisa na UNIP nos últimos dez anos, em diferentes condições experimentais (Bonamin et al., 2020; Nagai et al., 2023; Bonamin et al., 2024; Mohammad et al., 2025 b). Para auxiliar jovens pesquisadores no planejamento de estudos experimentais na área, um guideline foi preparado pelos pesquisadores mais ativos na área, com o objetivo de melhorar a robustez da pesquisa básica em altas diluições nos próximos anos (Tournier et al., 2024).

Sob o ponto de vista clínico, a falta de compreensão sobre os mecanismos de ação da homeopatia e a tendência natural dos pesquisadores de fazerem comparações diretas com a farmacologia clássica, sem conhecer a história da pesquisa nessa área na sua totalidade, representam uma dificuldade importante na condução de ensaios clínicos adequados, quer por parte dos clínicos homeopatas mais tradicionais, quer por parte dos pesquisadores especializados em pesquisa clínica que não conhecem as particularidades fenomenológicas da homeopatia. Um exemplo recente é o trabalho de Ferreira et al., 2022, em que a população de Staphylococcus spp no leite de vacas tratadas para mastite subclínica não se modificou após o tratamento com homeopatia. Contudo, é amplamente conhecido que os medicamentos homeopáticos têm efeito modulador sobre a atividade biológica do hospedeiro, facilitando o processo de bioresiliência frente aos desafios do ambiente, mas não apresentam efeito microbicida demonstrável em nenhum estudo experimental. O resultado obtido não é “negativo” nesse caso, mas é totalmente esperado. 

Por outro lado, a dificuldade em conduzir ensaios clínicos de qualidade parece ser generalizada, devido ao alto grau de complexidade dos métodos preconizados. Em estudo recente, Mosley e Roberts (2026), identificaram, por meio de uma reanálise de um estudo publicado em 2022, que a porcentagem de estudos que apresentam falhas metodológicas de estudos clínicos publicados em homeopatia não difere da porcentagem encontrada em estudos de outras áreas. Talvez o caso mais emblemático de controvérsias acerca do entendimento das publicações na área tenha ocorrido em 2015, com a revisão do “National Health and Medical Research Council (NHMRC)”, na Austrália. Os autores triaram 1.800 estudos sobre homeopatia para selecionar aqueles que abordassem eficácia clínica e concluíram que nenhum ensaio clínico controlado por placebo bem conduzido demonstrou a efetividade de remédios homeopáticos em qualquer condição. Contudo, epidemiologistas locais observaram um fato incomum: a metodologia utilizada para a seleção dos estudos não era compatível com a metodologia comumente empregada em metanálises e revisões sistemáticas de ensaios clínicos; ao contrário, apresentava uma linha de corte excessivamente alta, o que excluiu uma quantidade importante de artigos que normalmente seriam incluídos em revisões sistemáticas validadas por métricas objetivas. Tratava-se de um tratamento especial ao tema, o que suscitou uma reclamação formal e uma averiguação aprofundada dos dados levantados por uma nova equipe. Após 8 anos de revisões, constatou-se grande dificuldade em realizar a reavaliação, e não foi possível alcançar nenhuma conclusão definitiva face às divergências conceituais e metodológicas. 

Tal dificuldade foi claramente observada no Mapa de Evidências Clínicas em Homeopatia, organizado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em parceria com o Consórcio Acadêmico-Brasileiro em Saúde Integrativa (CABSIN), e publicado em 2022 na plataforma da BIREME – Biblioteca Virtual em Saúde, cuja descrição e comentários estão em Bonamin et al., 2025. O resultado desse amplo processo de levantamento das revisões sistemáticas publicadas sobre o tema entre 1991 e 2021, com predomínio de revisões organizadas pela COCHRANE, foi a descrição de resultados positivos obtidos em estudos metodologicamente confiáveis, segundo a ferramenta AMSTAR-2, para as seguintes enfermidades: fibromialgia, otite média, diarreia, infecções respiratórias, síndrome da menopausa, síndrome do intestino irritável e déficit de atenção e hiperatividade em crianças. Contudo, o uso da homeopatia não se limita a essas condições clínicas. Em uma revisão sistemática posterior, Hamre et al. (2023) mostraram que meta-análises de ensaios clínicos placebo-controlados de homeopatia revelavam efeitos positivos estatisticamente significantes em relação ao placebo, para qualquer indicação clínica, o que estava em consonância com estudos experimentais replicáveis in vitro, em plantas e em animais e em estudos físico-químicos. 

Apesar das dificuldades metodológicas, conceituais e de comunicação, há evidências importantes de que a homeopatia merece mais atenção à luz do conhecimento contemporâneo. Esse tópico é discutido em um artigo recente de Van Haselen et al. (2026).

Em dezembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde lançou “The WHO Traditional Medicine Global Library” que, até 07 de setembro de 2026, contava com 16.918 publicações, entre elas TODAS as publicações disponíveis no principal periódico científico da área, “Homeopathy” (Thieme Publishers), indexado na base de dados PubMed, entre outros.


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 Imagem de capa produzida com auxílio da inteligência artificial (IA).