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O segredo da longevidade celular: como a nutrição pode influenciar nossos genes

RA

Dr. Rodrigo Augusto Foganholi da Silva

02 de setembro de 2026

Imagine que o seu corpo seja um enorme livro de receitas. O DNA seria o texto original, escrito antes mesmo de você nascer, contendo as instruções necessárias para construir e manter o organismo. Mas ter o livro não significa que todas as receitas serão utilizadas o tempo todo. Algumas páginas são lidas com frequência, outras permanecem praticamente esquecidas. É justamente nesse ponto que entra a epigenética.

De maneira simplificada, a epigenética estuda mecanismos que regulam a atividade dos nossos genes sem alterar a sequência do DNA. São como marcas químicas que ajudam a determinar quais genes serão mais ou menos utilizados pelas células. E o mais interessante é que essas marcas não são completamente independentes do ambiente em que vivemos. Alimentação, atividade física, sono, estresse e outros fatores podem influenciar os mecanismos epigenéticos que regulam a expressão gênica. Isso não significa que podemos simplesmente “ligar” os genes da juventude ou “desligar” os genes das doenças. A realidade é muito mais complexa. Mas significa que existe uma relação interessante entre o nosso estilo de vida e a maneira como nossas células utilizam as informações que estão armazenadas no DNA.

O que a alimentação tem a ver com isso? Quando pensamos em alimentação e envelhecimento, é comum imaginar apenas questões como peso corporal, colesterol ou glicemia. Esses fatores são importantes, mas os efeitos da alimentação começam muito antes de qualquer alteração que conseguimos perceber. Nutrientes e compostos presentes nos alimentos participam de diversas reações bioquímicas dentro das células. Alguns deles podem influenciar vias relacionadas ao metabolismo, à inflamação, ao estresse oxidativo e também a mecanismos envolvidos na regulação da expressão dos genes. É por isso que a relação entre alimentação e epigenética tem despertado tanto interesse científico.

Alguns compostos presentes em alimentos, como o resveratrol encontrado nas uvas, a curcumina presente na cúrcuma e as catequinas encontradas no chá-verde, vêm sendo estudados por seus possíveis efeitos sobre diferentes processos celulares. Entre eles estão mecanismos relacionados às sirtuínas, proteínas que participam da regulação do metabolismo celular, da resposta ao estresse e de outros processos associados ao envelhecimento.

Mas existe uma diferença importante entre dizer que uma substância pode influenciar uma determinada via molecular e afirmar que comer determinado alimento fará uma pessoa viver mais. A ciência ainda está investigando até que ponto essas relações observadas em células e modelos experimentais se traduzem em benefícios reais para a saúde humana.

O alimento pode realmente “mudar” nossos genes? Aqui existe uma confusão bastante comum quando falamos sobre epigenética. A alimentação não muda a sequência do nosso DNA da maneira como uma mutação genética faria. O que pode mudar é a maneira como determinados genes são regulados e utilizados pelas células.

Uma das formas mais conhecidas de regulação epigenética envolve a metilação do DNA. Existem também modificações nas proteínas associadas ao DNA, chamadas histonas, além de mecanismos mediados por diferentes tipos de RNA. Esses processos ajudam a determinar quais regiões do nosso material genético estarão mais acessíveis ou menos acessíveis para serem utilizadas. Podemos imaginar novamente o nosso livro de receitas. A receita continua escrita na página, mas podemos colocar uma marca, um post-it ou até mesmo fechar o livro em determinado momento. A informação continua existindo, mas o acesso a ela pode mudar. É uma comparação simples, mas ajuda a entender por que a epigenética é tão interessante: não basta saber quais genes possuímos; também precisamos entender como esses genes são regulados.

E o envelhecimento? O envelhecimento é um processo extremamente complexo. Ele envolve alterações no DNA, metabolismo celular, comunicação entre as células, inflamação, funcionamento das mitocôndrias, senescência celular e muitos outros mecanismos. A epigenética é apenas uma parte dessa história, mas uma parte importante. Com o passar dos anos, padrões epigenéticos podem sofrer alterações. Essas mudanças podem afetar a expressão de genes envolvidos em diferentes funções celulares e estão entre os fenômenos estudados pela ciência do envelhecimento.

É por isso que pesquisadores investigam se determinadas mudanças epigenéticas podem funcionar como marcadores do envelhecimento biológico e se intervenções capazes de modificar esses processos poderiam contribuir para um envelhecimento mais saudável. A ideia não é encontrar uma única molécula ou um alimento capaz de “parar o relógio” das células. O desafio científico é compreender como diferentes fatores se combinam ao longo de décadas para influenciar a saúde e a longevidade.

Então comer bem pode ajudar a envelhecer melhor? A resposta mais responsável é: provavelmente, sim, mas não por causa de um único alimento ou de um único mecanismo. Uma alimentação equilibrada fornece energia e nutrientes necessários para o funcionamento adequado do organismo e está associada à redução do risco de diversas doenças crônicas. Ao mesmo tempo, pesquisas experimentais indicam que componentes da alimentação podem interagir com vias moleculares relacionadas ao metabolismo, à inflamação e à regulação epigenética.

Isso ajuda a explicar por que a qualidade da alimentação importa muito mais do que encontrar um “alimento milagroso”. Brócolis, couve, frutas, legumes, grãos, castanhas, peixes e tantos outros alimentos podem fazer parte de uma alimentação saudável. O benefício está muito mais no conjunto da alimentação e no padrão mantido ao longo do tempo do que em um único composto isolado. A epigenética não transforma o prato em um painel de controle capaz de determinar sozinho o destino das nossas células. Ela nos mostra algo mais interessante: o organismo é dinâmico e responde constantemente ao ambiente.

A genética é destino? Durante muito tempo, falar em genética poderia passar a impressão de que tudo estava previamente determinado. Se uma pessoa herdasse uma determinada característica, parecia que pouco poderia ser feito a respeito. Hoje sabemos que essa visão é simplista. Nossos genes são fundamentais para determinar muitas características do organismo, mas a maneira como eles são expressos também depende de uma complexa interação entre genética e ambiente.

A epigenética ajuda justamente a compreender essa relação. Isso não significa que somos capazes de controlar completamente o nosso envelhecimento. Nem que uma pessoa possa evitar uma doença simplesmente mudando a alimentação. Existem fatores genéticos, ambientais, sociais e comportamentais que não estão sob nosso controle. O que a ciência nos mostra é que nossas escolhas fazem parte dessa equação.

Talvez essa seja uma das ideias mais interessantes da epigenética: o DNA que herdamos não conta sozinho toda a história. Existe também uma camada de regulação que influencia como essa informação é utilizada pelas nossas células. Envelhecer é inevitável. Envelhecer com saúde, porém, envolve muitos fatores que podem ser influenciados ao longo da vida. E talvez o verdadeiro segredo não esteja em encontrar uma receita para não envelhecer, mas em compreender cada vez melhor os mecanismos que permitem que nossas células envelheçam de maneira mais saudável.

A ciência ainda está descobrindo como alimentação, metabolismo e epigenética se conectam. E, quanto mais entendemos essas relações, mais percebemos que cuidar da saúde não é apenas uma questão de viver mais. É também uma questão de viver melhor durante os anos que temos pela frente. Para quem quiser se aprofundar no tema do envelhecimento e nos mecanismos celulares envolvidos nesse processo, o livro Tempo de Vida: Por que envelhecemos, e por que não precisamos, de David A. Sinclair, apresenta uma discussão sobre as teorias do envelhecimento e os mecanismos biológicos associados à longevidade.

É importante, entretanto, diferenciar a divulgação científica apresentada em livros para o público geral das evidências estabelecidas pela literatura científica. Algumas hipóteses e intervenções discutidas na área de longevidade continuam sendo objeto de investigação.


Imagem de capa produzida com o auxílio de inteligência artificial (IA).