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Sarampo: por que uma doença evitável ainda preocupa a saúde pública?

YR

Yuri Rodrigues

26 de agosto de 2026

O sarampo é uma doença infecciosa altamente contagiosa causada pelo vírus do sarampo, pertencente ao gênero Morbillivirus. Embora exista uma vacina altamente eficaz e disponível há décadas, a doença continua representando um importante problema de saúde pública em diferentes regiões do mundo. Nos últimos anos, a redução da cobertura vacinal em algumas populações, associada à interrupção ou redução de programas de vacinação durante a pandemia de COVID-19 e à circulação internacional de pessoas, contribuiu para a reintrodução e o aumento da transmissão do vírus em diferentes países.

O que é o sarampo?

Após a entrada do vírus no organismo, existe um período em que a pessoa está infectada, mas ainda não apresenta sintomas. Esse intervalo é chamado de período de incubação. No sarampo, o período de incubação costuma ser de aproximadamente 10 a 14 dias até o aparecimento dos primeiros sintomas. O período até o surgimento das manchas vermelha (uma característica do sarampo) costuma ser de aproximadamente 14 dias após a exposição, podendo apresentar alguma variação de individuo para individuo (MOSS, 2017).

Isso significa que uma pessoa pode ter sido infectada e permanecer aparentemente saudável durante 14 dias antes de perceber que está doente. Inicialmente, os sintomas geralmente incluem febre, tosse, coriza e conjuntivite. Após alguns dias, surge as manchas vermelha, que geralmente começa na face e na região próxima à linha do cabelo e posteriormente se espalha pelo corpo.

Um aspecto epidemiologicamente importante é que a pessoa infectada pode transmitir o vírus antes mesmo do aparecimento das manchas. A transmissão ocorre aproximadamente quatro dias antes até quatro dias depois do início das manchas vermelha (MOSS, 2017). Esse intervalo entre a infecção, o aparecimento dos sintomas e a capacidade de transmissão ajuda a explicar por que o vírus consegue se espalhar rapidamente antes que um caso seja identificado.

Por que o sarampo é tão contagioso?

Uma das principais características do sarampo é sua elevada transmissibilidade. O vírus é capaz de se espalhar rapidamente entre pessoas que não possuem imunidade. Nesse contexto, uma pessoa suscetível é alguém que não possui proteção suficiente contra o vírus. Isso pode ocorrer, por exemplo, porque a pessoa não foi vacinada, não completou o esquema vacinal recomendado ou nunca teve contato prévio com o vírus. É importante diferenciar esse conceito de "baixa imunidade" no sentido popular. Uma pessoa pode ter o sistema imunológico funcionando normalmente e, ainda assim, ser suscetível ao sarampo simplesmente porque não possui imunidade específica contra o vírus. Por esse motivo, pequenas reduções na cobertura vacinal podem produzir consequências importantes. Quando a proporção de indivíduos suscetíveis aumenta, o vírus encontra mais oportunidades para circular. 

A vacinação é realmente eficaz?

Sim, a vacina contra o sarampo apresenta elevada eficácia na prevenção da doença. A vacina geralmente é administrada em duas doses, estratégia que proporciona proteção muito superior à observada após apenas uma dose. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na Vaccine estimou eficácia de aproximadamente 84% após uma dose e 94% após duas doses contra o sarampo (UZICANIN; ZERKLE, 2011). É estimado que, na ausência de imunidade populacional, uma pessoa infectada possa transmitir o vírus para aproximadamente 12 a 18 indivíduos suscetíveis. Esse número, conhecido como número básico de reprodução (R₀), está entre os mais elevados observados para doenças infecciosas humanas (GUPTA et al., 2020). Além da proteção individual, a vacinação possui uma importante função coletiva. Quando uma proporção suficientemente elevada da população está imunizada, a circulação do vírus é reduzida, diminuindo a probabilidade de exposição de pessoas suscetíveis.

Por que ainda existem surtos se existe vacina?

A existência de uma vacina eficaz não significa que o sarampo desaparecerá automaticamente. Para interromper a transmissão, é necessário manter níveis muito elevados de cobertura vacinal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras instituições de saúde pública recomendam aproximadamente 95% de cobertura com duas doses para manter a eliminação sustentada do sarampo em uma população. Quando a cobertura cai abaixo desse nível, aumenta progressivamente o número de pessoas suscetíveis. A introdução do vírus em uma comunidade com baixa cobertura pode então desencadear surtos.

O Estado de São Paulo ajuda a demonstrar porque a vigilância epidemiológica continua sendo necessária mesmo em locais que possuem programas de vacinação estruturados com episódios de reintrodução e transmissão do sarampo após a interrupção da circulação endêmica do vírus. O grande surto ocorrido no Brasil a partir de 2018 mostrou que a introdução de casos importados pode provocar transmissão sustentada quando existem grupos com cobertura vacinal insuficiente. Em 2019, por exemplo, o estado de São Paulo concentrou grande parte dos casos registrados no Brasil durante o surto daquele período.

Esse fenômeno é importante porque a eliminação do sarampo não significa que o vírus deixou de existir no mundo. Significa que sua transmissão sustentada foi interrompida em determinada região. Enquanto o vírus continuar circulando internacionalmente, casos podem ser importados por pessoas infectadas durante viagens. Se encontrarem uma população suficientemente suscetível, podem iniciar novas cadeias de transmissão. Por isso, mesmo regiões que passaram anos sem transmissão sustentada precisam manter altas coberturas vacinais. Esse fenômeno é particularmente importante porque o sarampo é extremamente contagioso: mesmo pequenas bolsas de indivíduos não imunizados podem permitir a manutenção da transmissão. 

O sarampo pode causar complicações?

Embora muitas pessoas se recuperem completamente, o sarampo não deve ser considerado uma doença banal. Entre as complicações descritas estão otite média, pneumonia, diarreia e, em casos mais graves, encefalite. O risco de complicações é maior em determinados grupos, incluindo crianças pequenas, indivíduos desnutridos e pessoas imunocomprometidas (MOSS, 2017). Uma complicação particularmente importante é a panencefalite esclerosante subaguda (PESS), uma doença neurológica rara e progressiva que pode surgir anos após a infecção pelo vírus do sarampo. A ocorrência dessa complicação demonstra que os efeitos da infecção podem ultrapassar o período em que os sintomas agudos estão presentes.

O que está por trás do retorno do sarampo?

O ressurgimento do sarampo não possui uma única causa. A queda da cobertura vacinal é um dos principais fatores, mas outros elementos também contribuem para o problema. Entre eles estão dificuldades de acesso aos serviços de saúde, hesitação vacinal, circulação de informações incorretas, interrupções nos programas de imunização e importação de casos entre diferentes países. Durante a pandemia de COVID-19, milhões de crianças deixaram de receber vacinas de rotina ou tiveram sua vacinação atrasada. Esse acúmulo de indivíduos suscetíveis aumentou o risco de ressurgimento de doenças imunopreveníveis. Em um estudo publicado no The Lancet, Gaythorpe et al. (2021) demonstraram que a interrupção dos programas de vacinação durante a pandemia poderia aumentar significativamente o número de crianças suscetíveis ao sarampo e, consequentemente, o risco de surtos.

Os números ajudam a dimensionar esse problema. Em 2023, a OMS estimou aproximadamente 10,3 milhões de casos de sarampo no mundo, cerca de 20% a mais do que os 8,6 milhões estimados em 2022. No mesmo ano, aproximadamente 22 milhões de crianças não receberam a primeira dose da vacina contra o sarampo, enquanto a cobertura global permaneceu em torno de 83%(abaixo dos aproximadamente 95% necessários para interromper a transmissão sustentada do vírus). Esse cenário é particularmente preocupante porque o sarampo está entre as doenças infecciosas mais transmissíveis conhecidas. Assim, quando a cobertura vacinal permanece abaixo do necessário por vários anos, o número de indivíduos suscetíveis pode se acumular, criando condições favoráveis para o surgimento de novos surtos.

E o que podemos concluir?

O sarampo é um exemplo de como uma doença pode permanecer como ameaça mesmo quando existe uma ferramenta preventiva altamente eficaz. A vacinação não apenas reduz o risco individual de desenvolver a doença, mas também diminui a circulação do vírus na comunidade. Entretanto, para que esse efeito seja mantido, é necessário preservar uma cobertura vacinal elevada e garantir que as doses recomendadas sejam efetivamente administradas. Portanto, diante do aumento da circulação do sarampo em diferentes regiões, a principal questão não é apenas se existe uma vacina eficaz ela existe. O desafio está em garantir que essa proteção alcance uma proporção suficientemente elevada da população. A ciência já estabeleceu de forma consistente a eficácia da vacinação contra o sarampo. O que permanece como desafio é transformar esse conhecimento em cobertura vacinal adequada e sustentada.


Referências

GAYTHORPE, K. A. M. et al. Children's role in the COVID-19 pandemic: the importance of routine vaccination. The Lancet, v. 397, n. 10272, p. 1298-1300, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00601-8.

MOSS, W. J. Measles. The Lancet, v. 390, n. 10115, p. 2490-2502, 2017. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(17)31463-0.

UZICANIN, A.; ZERKLE, K. Field effectiveness of live attenuated measles-containing vaccines: a review of published literature. Journal of Infectious Diseases, v. 204, Suppl. 1, p. S133-S148, 2011. DOI: https://doi.org/10.1093/infdis/jir102.

GUPTA, S. et al. Measles and the importance of maintaining high vaccination coverage. The Lancet Infectious Diseases, 2020.


Imagem de capa produzida com o auxílio de inteligência artificial (IA).